CULTCLASSIC Apresenta: "Cidadão Kane"

O mais clássico dos cults, ou o mais cult dos clássicos? Difícil responder...
Por
Rodrigo Fidalgo


Aliás, não só difícil responder como também é difícil falar qualquer coisa sobre um filme como “Cidadão Kane” sem que alguém já tenha dito antes! É como falar sobre Beatles, Alfred Hitchcock, William Shakespeare ou Jesus Cristo...

Bom, de qualquer maneira, vamos lá! Vou tentar...

“Cidadão Kane”, dirigido por Orson Welles, é considerado por 11 em cada 10 críticos de cinema como o melhor filme de todos os tempos.

E olha que ele foi feito em 1941!!!

Por que até hoje, mais de 60 anos depois, ninguém conseguiu fazer um filme que se equiparasse a este?

Para falar a verdade, sim, é claro que foram feitos outros filmes tão bons quanto. Mas o que é levado em consideração aqui é a primazia e a originalidade de Welles.

Welles tinha só 25 anos (!) quando realizou este que é seu primeiro filme (!!), fazendo um enquadramento de luzes e sombras de tal maneira que ninguém conseguiu igualá-lo até hoje (!!!).

Nem Steven Spielberg, talvez o maior gênio do cinema em atividade, conseguiu fazer em seu filme preto-e-branco “A lista de Schindler” esse jogo de luzes e sombras de maneira tão impactante quanto Welles.

Além de seguro na direção, o próprio Welles interpreta o personagem principal de maneira impressionante. Em certos momentos, é difícil acreditar que por trás da persona de Kane está um rapaz de apenas 25 anos...

Outro detalhe importante é que Welles também foi o primeiro a alterar a sequência cronológica de um filme, pois o personagem principal morre logo no início (não estou estragando nada contando isso, pode ter certeza...) e toda a história é contada em flashbacks.

Aliás, falando nisso, e a história?

Um repórter, ao descobrir que o milionário da indústria de comunicação Charles Foster Kane sussurrou a palavra rosebud ao morrer, vai atrás de todos que conviveram com ele, a fim de tentar descobrir o que esse “botão-de-rosa” (tradução de rosebud) significou na vida do magnata.

Orson Welles foi um gênio (no sentido literal da palavra, já que tinha Q.I. acima da média), e isso não impediu que, depois de “Cidadão Kane”, ele nunca mais conseguisse dirigir qualquer outro filme por um grande estúdio.

Tal situação deu-se graças a um cidadão (sem trocadilhos...) chamado William Randolph Hearst, um “Roberto Marinho” da época, dono de uma grande rede de jornais e canais de TV nos EUA.

Hearst cismou que o filme era baseado em sua vida, e tentou de todas as maneiras boicotar e proibir a circulação. E, embora Welles negasse, o roteiro era realmente baseado nele!

A história da vida dos dois está contada no DVD extra que vem junto com filme lançado pela Warner: “A batalha por Cidadão Kane”, indicado ao Oscar de melhor documentário em 1995.

Bom, apesar de nunca mais ter conseguido um filme por um grande estúdio, isso também não o impediu de continuar dirigindo outros filmes de maneira independente. E fez outras obras-primas sensacionais como “A marca da maldade”, “O estranho”, “A dama de Shanghai” e as adaptações de Shapeskeare (“Otelo”,“Macbeth”) e de Franz Kafka (“O processo”).

“Cidadão Kane” é aquele típico filme (assim como outros clássicos como “O poderoso chefão” de Francis Ford Coppola e “1900” de Bernardo Bertolucci) em que você NÃO sente o tempo passar! E, a cada vez que você assiste, é como se o estivesse vendo pela primeira vez: sempre há um detalhe novo... sempre há algo não reparado antes... O que dá mais prazer a cada revisão e também dá aquela sensação de dizer, ao término: “Que puta filme!”

Curiosidades:

- Foi indicado para os seguintes Oscars: filme, ator, diretor, roteiro, edição (montagem), direção de arte, fotografia, trilha sonora e som. Ganhou o de roteiro.

O vencedor do Oscar de melhor filme daquele ano foi “Como era verde meu vale”, dirigido por John Ford. Ford também levou o de melhor diretor.

Foram indicados também naquele ano “Suspeita” de Alfred Hitchcock e “O falcão maltês” de John Huston. Welles perdeu o Oscar de melhor ator para Gary Cooper (“Sargento York”).

- O roteirista do filme é Herman J. Mankiewicz, irmão mais velho de Joseph Mankiewicz.

Joseph dirigiu outros clássicos como “Cleópatra” (a versão mais famosa, da Elizabeth Taylor, em 1963) e “A malvada” (com Bette Davis, um dos recordistas do Oscar e também considerado um dos melhores filmes de todos os tempos).

- O filme foi editado (montado) por ninguém mais ninguém menos do que Robert Wise.

Ganhador do Oscar de melhor diretor por “Amor sublime amor” e por “A noviça rebelde”, também dirigiu “O dia em que a Terra parou” (o original de 1951, que serviu de base para o recente com Keanu Reeves) e “Jornadas nas estrelas – O filme” (o primeiro da série, de 1979).

Com 27 anos de idade, este foi o seu primeiro trabalho importante no cinema, sendo inclusive indicado para o Oscar.

- Agnes Moorehead, que interpreta a mãe de Kane, foi indicada 4 vezes ao Oscar de melhor atriz coadjuvante entre 1943 e 1965.

Ficou bastante conhecida no Brasil como Endora (a mãe da bruxinha simpática Samantha) do seriado “A feiticeira”. Papéis que foram reprisados por Shirley MacLaine e Nicole Kidman no filme de 2005.

- Em 1999, foi feito um filme para a TV nos Estados Unidos chamado “RKO 281” que mostra como foi feito o filme e a briga de Welles com Hearst. O filme tem Liev Schreiber (o Victor Creed de “Wolverine”) interpretando Orson Welles; James Cromwell (o fazendeiro de “Babe - O porquinho atrapalhado”) no papel de William Randolph Hearst; e John Malkovich (este dispensa comentários, né?) na pele de Herman Mankiewicz.

Citei este filme apenas como uma curiosidade mesmo, uma vez que ele não foi lançado comercialmente no Brasil.

Para falar a verdade, ele foi lançado sim em fita VHS pela Warner. O que dá na mesma, já que é praticamente impossível achar fitas VHS hoje no país.



Edição: Paulo Costa
Imagens e vídeos: Divulgação

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