Resenha: Cinquenta Tons de Liberdade


Kim Basinger teve todas as suas cenas cortadas na edição final (Divulgação)

Funciona... como comédia ou (cadê a Kim Basinger?)
Por Paulo Costa

Com cenas nada convincentes, um roteiro que mais parece um queijão suíço de tanto buraco, a maior estreia da semana, "Cinquenta Tons de Liberdade" (Fifty Shades Freed), não passa de um filme medíocre que poderia ser exibido no extinto programa televisivo Cine Band Prive, sim, aquelas sessões que passavam, no sábado de madrugada, filminhos intitulados "eróticos", mas que serviam mesmo com um bom sonífero.

(Universal Pictures)
Para quem esteve perdido em Marte nos últimos anos, o longa é a terceira e última parte da franquia que começou em 2015 com "Cinquenta Tons de Cinza", adaptação do livro de E. L. James, a novela logo ganhou notoriedade e explodiu, criando um furor num grupo de pessoas e até hoje não consigo compreender o motivo de algo tão banal se tornar um fenômeno, a autora tinha em mãos algo muito interessante a ser explorado  com veracidade, o mundo do S&M, prática que poderia ser explorada, inclusive, através de uma ótica até mesmo sociológica, mas é claro que isso não acontece e, após o estouro da obra e consequentemente seguido dos filmes, muitos começaram a enxergar a prática como algo obsceno e doentio, o que poderia se tornar interessante se torna algo desprezível e até mesmo preconceituoso.

O casal Anastasia (mais para Anestesia de tão chata e sonsa que chega a dar sono, tipo um anestésico) e Christian “Cinza” (Grey) surgiu a partir de outro romance. Sim, a criadora dessas criaturas bebeu literalmente na fonte de “Crepúsculo” pois, ao seu ver, a história dos Vampirinhos Brilhantes e dos Lobinhos tinha pouco sexo e pouco amor, e a partir de uma Fan Fic surgiu essa obra desnecessária.

Já que não há necessidade em explicar o enredo dos anteriores, umas vez que sempre faltou enredo na franquia, o desfecho da pseudohistória começa com os dois se casando, os problemas superados, o casal agora pode se jogar em uma vida de amor, intimidade, dinheiro, sexo, relacionamento estável e um promissor futuro. Mas como já era mais do que previsível que um fantasma do passado voltaria a impedir a paz do casal, Jack Hyde.

Como já mencionado o roteiro é mais esburacado que as ruas de São Paulo, são cenas desconexas jogadas na tela. Quando algo poderia ser incluído na trama para tentar fazer o longa se tornar um pouco menos sonolento tudo se resolve em 5 minutos. Porém, existem alguns momentos interessantes, como por exemplo... Não, durante 1 hora e 45 minutos de projeção não há nada de interessante ali. Ceninhas de ciúmes bestas, uma vingancinha machista e para lá de infantil, já que o ego do macho foi ferido, uma perseguição de carros nada convincente e com um CGI bem ruim em que nota-se nitidamente o ator sempre parado e o recorte entre o rosto dos atores e o fundo falso, uma tentativa de sequestro bem meia boca, enfim, uma colcha de retalhos que mais parecem videoclipes inserido em um plano sem o menor contexto, onde tudo acaba em sexo. Depois da perseguição eles fazem o quê? Sexo dentro do carro! Depois da cena de ciúmes por causa de um topless na praia ele fazem o quê? Sexo! A mocinha indefesa sofre uma tentativa de sequestro, qual a cura para esse trauma? Sexo!

Johnson e Dornan, já que é pra ser ruim pra que se esforçar? (Divulgação)

Os atores Dakota Johnson e Jamie Dornan não fazem o menor esforço para tentar segurar uma história que já está naufragada por completo, ela passa mais da metade do filme mostrando os seios desnecessariamente e ele só pensando em foder, afinal ele “não faz amor, ele fode com força” (tentativa de frase de efeito frustrante no primeiro longa), a não ser quando seu ego de macho dominador é ferido e ele “não está no clima”. Os dois que já não são bons atores transparecem nitidamente que não estavam à vontade e que com certeza queriam que tudo acabasse logo. Um dos nomes consagrados do elenco, Marcia Gay Harden, se mostra totalmente desconfortável como a mãe adotiva de Christian e protagoniza cenas diversas cenas dignas de gargalhadas, pois sim, o filme funciona muito bem como comédia, já que até cenas de sofrimento são tão pessimamente interpretadas que é impossível não segurar a gargalhada.

O diretor James Foley, que já havia afundando a obra em “Cinquenta Tons Mais Escuros”, o segundo da franquia, parece ter o dom para construir cenas bregas e fazer com que tudo não passe de uma piada de mau gosto.

Mas existe algo que ainda não consegui localizar: cadê Kim Basinger? No livro ela é uma personagem com certa importância (não que exista algo importante). A loira que já teve seus momentos gloriosos no cinema foi literalmente cortada na edição final, no trailer ela aparece, mas aqui, nem nos créditos tem seu nome estampado, o que me causa curiosidade, cadê a mulher? Será que sua cena ridícula e que lhe rendeu indicação ao Framboesa de Ouro fez com que sua personagem, a responsável por iniciar Christian no mundo do sadomasoquismo, fez com que optassem em retirá-la para não prejudicar a obra?

No geral, o filme me rendeu boas risadas, olhares de reprovação das fãs e uma pausa para escrever um texto medíocre sobre um filme ainda mais medíocre que vai arrecadar muita grana, o que me faz ser um grande de um medíocre que saiu de casa para assistir essa bomba! Já sinto cheiro de muitos prêmios no Framboesa do ano que vem, já que o filme merece esse reconhecimento pelo conjunto da obra.

Pelo menos agora estamos livres! Ou não!



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