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Sem pudor e medo de julgamentos, Elton John se despiu de sua fantasia, e através de cenas deslumbrantes nos contou sua verdadeira história Por Paulo Costa

Resenha: Rocketman


Sem pudor e medo de julgamentos, Elton John se despiu de sua fantasia, e através de cenas deslumbrantes nos contou sua verdadeira história
Por Paulo Costa

Depois do estrondoso sucesso que "Bohemian Rhapsody", mais conhecido como o "Filme do Queen" ou o "Filme de Freddie Mercury", fez nos cinemas e nas premiações, garantindo inclusive a Rami Malek o Oscar de Melhor Ator, os estúdios passaram a ver com outros olhos as cinebiografias musicais, um mercado que estava esquecido a um bom tempo. A mais recente aposta vem da Paramount Pictures, com um universo tão colorido e peculiar quanto o de seu personagem principal, o astro Elton John.

Em "Rocketman", já em cartaz nos cinemas brasileiros, temos a trajetória de um dos mais importantes e conceituados artistas do mundo musical. Temos retratado em tela uma infância complicada onde, negligenciado por seu pai e com uma mãe egocêntrica, Reginald Dwight, tinha o que podemos chamar de amor apenas o que recebia de sua avó, que desde o primeiro dedilhar de seu neto no piano sempre apoiou e acreditou em seu potencial. Quando jovem, somos apresentados às origens de sua parceria com Bernie Taupin, que viria a ser seu maior parceiro profissional e que o levaria ao estrelato. A vida de Elton John é contada através de suas memórias utilizando como base  belas releituras de seus maiores hits.


Com um visual esplendoroso, sempre muito cheio de cor e espalhafatosos figurinos caprichados, o que inclui a criação de mais de 50 pares de sapatos e 50 óculos diferentes, somos remetidos a um dos filmes mais bonitos que vi recentemente em tela. Cada número musical possui uma particularidade absurda, o que torna todos marcantes e, quando costurado com o roteiro, que em boa parte se utiliza destas canções, explodem na tela e enche os olhos da plateia. Seja do pequeno Regie sozinho em seu quarto imaginando que está a conduzir uma orquestra, ou até mesmo de toda a sequência da canção que deu o título ao filme, Rocketman, arrisco em dizer que até mesmo a cena mais simples, que narra a origem de Your Song que considero uma das mais profundas declaração de amor já feita em forma de música, é muito bem trabalhada e construída. Não podemos esquecer de mencionar que Goodbye Yellow Brick Roads nunca fez tanto sentido como a que temos estampada no longa.

Taron Egerton constrói e desconstrói a figura de Elton John de uma maneira tão profunda que é impossível imaginar outro ator encarnando o cantor. O grande mérito vai para a estrutura como a narrativa se constrói, de um ser totalmente criado em sua própria fantasia que, ao encarar o fundo do poço, chega a uma clinica de reabilitação e começa a se despir diante do público. Assim como o próprio Elton John, o ator Taron Egerton também não se intimidou, e tudo ali é apresentado sem o menor pudor ou com medo de julgamentos, seja em mostrar seu vício em drogas ou sexo, seja no consumismo compulsivo ou até mesmo em sua bulimia e, se nas mãos de um ator errado, seria um total desastre.


Juntando esta estrutura que foge do convencional de uma narrativa cinebiográfica e acrescentando a uma edição energética, o personagem cresce ao se desconstruir, partes desta espalhafatosa fantasia cheia de plumas, pedrarias e outros adereços, tudo em tons alaranjados que em um ambiente como o de uma sala de reabilitação irradia suas cores, saem de cena e vai se apagando conforme a história avança para uma triste realidade.

Bryce Dallas Howard é outro grande destaque ao entregar uma mãe egocêntrica que nunca ligou para o filho, exceto quando este começou a fazer fama e fortuna. Vale dizer que a maquiagem que a vai envelhecendo conforme o personagem de Elton John vai se tornando mais velho é algo perfeito e que nos convence de que ela envelheceu naturalmente. Mas talvez muito mais que Bryce, foi um irreconhecível e moreno Jamie Bell que, ao dar vida ao amigo e parceiro de composições Bernie, foi o responsável por várias das cenas me arrancaram lágrimas.


Feitas as considerações para os astros, outro ponto importante na obra é a questão da sexualidade do personagem, tema tratado de forma tão aberta que inclui duas belíssimas cenas. Uma de Elton John em seus momento de intimidade com outro homem, John Reid, personagem canastrão de Richard Madden, e a outra em uma discoteca que não vale detalhar para não estragar a experiência.

O cineasta Dexter Fletcher, que trabalhou como montador em "Bohemian Rhapsody", entrega uma visão que beira o perfeccionismo. Tal elogio faz total sentido quando analisamos profundamente o exímio trabalho como diretor de atores, desde um figurante até o principal, nenhum deles está em cena à toa e muito menos entregando um personagem raso. Como diz o slogan, "Para contar sua história é preciso viver sua fantasia", o longa nos entrega algo tão fantasioso, mas ao mesmo tempo tão verdadeiro, que faz de "Rocketman" um filme efervescente em todos os sentidos. Vivenciamos, então, uma viagem de aproximadamente duas horas por uma estrada repleta de paisagens deslumbrantes cheia de sentimentos, seja a alegria ou a angustia, o sofrimento ou o próprio amor, e até mesmo esperança, este inclusive o que todos nós precisamos um pouco para viver.

Aproveite e assista ao nosso vídeo resenha:





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