Resenha: The Cloverfield Paradox


Perfis estereotipados perdidos no espaço (Divulgação/Netflix)

The Cloverfield Paradox
Por Daniela Baroni

Uma chinesa, um russo, um brasileiro e um – inserir nacionalidade estereotipada aqui – entram numa nave espacial para levar um acelerador de partículas para o espaço...

Se isso parece o começo de uma piada bem ruim, não é à toa. The Cloverfield Paradox, o lançamento surpresa da Netflix e terceiro filme da “franquia” (ênfase nas aspas) Cloverfield mostra, em seus 102 minutos, que é justamente isso: uma piada das piores.

The Cloverfield Paradox foi mantido em segredo até o intervalo da final do Super Bowl desse domingo. Em meio às propagandas exclusivas e trailers inéditos, o longa não só foi anunciado pela primeira vez como já foi disponibilizado imediatamente pela Netflix. Sem dúvida, quando se trata de Cloverfield, o marketing sempre foi inusitado e já fez uso de teasers virais e conteúdos misteriosos em sites para divulgar seus filmes anteriores; no entanto, liberar o filme assim repentinamente pareceu mais uma uma tentativa afobada da Netflix de se livrar de uma possível bomba que havia comprado.

(Divulgação/Netflix)
Depois que Cloverfield – Monstro nos presenteou com um pequeno frescor no terror found-footage, misturando-o com o clima dos monster movies, e depois de Rua Cloverfield 10 mostrar uma proposta completamente diferente e entregar um suspense de primeira, o terceiro filme da série tenta seguir a mesma ideia, desta vez com uma ficção científica. A princípio, a trama é simples: a Terra passa por uma crise de energia e as nações entram em guerra pelas poucas fontes de energia que restam. A fim de solucionar o problema, sete astronautas de nacionalidades diferentes são enviados na missão de acionar um acelerador de partículas na órbita do planeta para gerar energia. E, graças a um monólogo extremamente expositivo logo nos primeiros minutos, já somos alertados de que a missão poderia causar (leia-se obviamente causaria) uma fissura no tempo-espaço e desencadear o caos, o que incluiria monstros alienígenas por alguma razão. O que vem em seguida é, ao mesmo tempo, uma explicação desnecessária e confusa para o monstro do primeiro filme e uma tentativa de justificar uma colisão multidimensional com um emaranhado de conceitos da física quântica mal explicados.

Estrelando o filme, Gugu Mbatha-Raw, conhecida pelo seu marcante papel em San Junipero (Black Mirror), entrega uma protagonista sem sal e pouco memorável que parece tomar as piores decisões. Com o resto do elenco não é muito diferente. David Oyelowo passa totalmente batido como o comandante da nave; John Ortiz retrata o “brasileiro” mais desinteressante da Terra; Aksel Hennie tem suas melhores cenas só depois de morto; Daniel Brühl (Bastardos Inglórios) ao menos busca mostrar um pouco de complexidade com o fiapo de texto que recebe; Ziyi Zhang (O Tigre e o Dragão) é obrigada a deixar seu talento de lado para encarnar uma espécie de Chewbacca chinesa da tripulação; e, claro, Chris O’Dowd fica com o papel que sabe fazer, o alívio cômico.

Gugu Mbatha-Raw: protagonista pouco memorável (Divulgação/Netflix)


Parte do problema com certeza é de responsabilidade do roteirista Oren Uziel (Anjos da Lei 2) que além de não colocar um texto interessante e coerente na boca dos atores, falha em estabelecer as regras do mundo fantástico que criou. Atrelada a isso, está a direção do novato Julius Onah, que conduz o filme sem conseguir determinar seu tom. No intervalo de 1h40, passamos por Armageddon, Alien, O Enigma de Outro Mundo, Exterminador do Futuro e qualquer filme do Adam Sandler (vide todas as cenas de O’Dowd sem o braço). A impressão que fica é de que o diretor se lembrou só mais tarde de que dirigia um filme do universo Cloverfield e disse “É verdade! Coloca um monstro gigante aqui e está resolvido”. E deu no que deu.

O fato de a Netflix andar desesperada por conteúdos exclusivos não é novidade para ninguém, considerando a quantidade de contratos que a empresa anda perdendo para plataformas concorrentes. Então pode ser que tenha parecido uma ótima ideia comprar a distribuição de uma produção que carrega o nome de J.J. Abrams e da Bad Robot, mesmo depois de ela ter sido rejeitada pela Paramount. Nada que um lançamento surpresa não resolvesse, aparentemente. Para os fãs dos dois excelentes filmes que precederam The Cloverfield Paradox, já é uma decepção ver um filme que não cumpre com as expectativas, mas mais decepcionante ainda é ver uma distribuidora do porte da Netflix tão desesperançosa com o próprio produto.

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