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Resenha: “Série Napolitana” de Elena Ferrante


Violência, machismo, miséria: Elena Ferrante conquista leitoras de 2019 com história de 1950
Por Vanessa França


Periferia de Nápoles, anos 1950. Duas garotas de 11 anos se encontram na rua em que moram e, depois de jogarem suas bonecas em um bueiro, começam uma amizade que vai da infância à velhice, momento em que uma delas desaparece misteriosamente. Essa é a história da "Série Napolitana", da autora Elena Ferrante, sobre a amizade de Elena Greco e Rafaella Cerullo. Para quem acha que o romance está distante do cotidiano da mulher de 2019, Ferrante mostra que a trajetória dessas italianas está muito mais próxima dos nossos dias do que parece.

Elena Ferrante é um pseudônimo sobre o qual a imprensa italiana ainda especula, já que ela só concede entrevistas por e-mail e jamais vai a lançamentos ou premiações por acreditar que boas obras devem falar por si, sem precisar da celebridade de seus criadores. Premiada pela crítica e elogiada pelo público, a série conta com quatro títulos: "A amiga genial" (2011), "História do novo sobrenome" (2012), "História de quem vai e de quem fica" (2013) e "História da menina perdida" (2014).

A tetralogia tem estilo de autobiografia sem pretender ser assim. Nela, a bem-sucedida escritora Elena Greco (Lena) decide publicar um livro com as memórias que guarda da amiga Rafaella Cerullo (Lila), como uma resposta ao seu desaparecimento. A narradora descreve momentos da vida de ambas, quase sempre marcados por uma competição velada entre as duas. Ambientada em um bairro marcado pela violência e pela miséria do pós-guerra, a "Série Napolitana" retrata de forma bastante direta a violência cotidiana contra a mulher e a pobreza que alimenta a baixa escolaridade e transforma casamentos arranjados em sobrevivência para famílias inteiras.


Em tempos de tantas discussões sobre machismo, os episódios narrados por Lena parecem extremos, mas basta olhar para nossas mães, tias e avós para perceber como essa realidade ainda pode ser sentida entre nós. Não faz tanto tempo assim que adolescentes se casavam para sair da pobreza e estudar além da alfabetização era um luxo para poucos.

A série também fala de corrupção, criminalidade, fascismo e xenofobia. Os temas são atuais, mas, no período em que a história acontece, são parte da organização da vida em comunidade. Apenas as protagonistas parecem ter consciência disso. Lena e Lila nos fazem pensar como as conquistas das mulheres nos últimos 70 anos abriram os caminhos da atual geração transformando o mundo ao nosso redor: em pouco mais de meio século deixamos de questionar a educação de mulheres e passamos a questionar o casamento. Ao mesmo tempo em que mostra um machismo mais explícito e socialmente aceito, o romance apresenta o imenso caminho já percorrido e a coragem de mulheres reais em todas as épocas, resistindo à violência e à opressão quando essa era a única forma de sobreviver.

Com mais de 5 milhões de livros vendidos em mais de 40 países, a tetralogia de Elena Ferrante deu origem também a uma peça no teatro inglês em 2017 e ainda virou uma série co-produzida pela HBO: o primeiro lançamento mundial da produtora não filmado em inglês. Tanto sucesso não é por acaso, como podemos ver nas milhares de leitoras que se veem nas personagens e se apaixonam pela história de Lena e Lila.




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