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Séries: O que houve com Game of Thrones?


Com a série chegando ao fim, podemos ver que a sala dos roteiristas é escura e cheia de horrores
Por Pedro Soler e Lulu Ribeiro

Faltam apenas dois dias para o fim de "Game of Thrones" e, diferente do que aconteceu em temporadas anteriores, a maioria dos fãs se encontram decepcionados. Alguns ainda agradecem a série estar chegando ao fim para que a destruição de seus personagens favoritos acabe. Mas afinal, o que ocorreu com a série?

Retornando ao princípio de tudo, eu, Pedro, sou uma daquelas pessoas que não superaram a morte de Ned Stark. Sim, parei de ler quando esse evento fatídico ocorreu e só fui assistir a série para acompanhar a esposa. O trágico fim daquele que parecia ser o personagem principal da história mexeu com todos e estabeleceu o tom de Westeros. Ninguém estava a salvo.

Os livros foram sendo escritos, até que não saiam mais (G. R. R. Martin, quantos anos fazem?). E a série foi passando até ultrapassar os livros. Aqui que a coisa complica de vez. Seria a série incapaz de manter a qualidade dos livros? Não, não seria. Manteve? Não, também não. Mas a resposta para isso é mais simples do que parece: as duas últimas temporadas de "Game of Thrones" são filhas do medo.


Não podemos negar que a produção da HBO se tornou, se não a maior, uma das maiores séries de todos os tempos. O mundo inteiro comenta os episódios assim que eles acabam. Até quem não gosta (sim, existem esses), conhece personagens, trama e outros detalhes. Mas essa fama tem consequências.

Sempre que algo se torna muito grande, somos obrigados a considerar a maior parte das pessoas. O famoso "senso comum". Só que os livros foram criados o contrariando. Enquanto algumas séries e livros engatinham sobre certos assuntos polêmicos, nas "Crônicas de Gelo e Fogo", os livros que deram origem à série, encontramos párias sendo as pessoas mais astutas, bastardos frutos da desonra da traição buscando ser o mais honrado, mulheres superando inúmeros homens com suas estratégias e desafios constantes à hierarquia costumeira.


Não é uma história sobre lacrar, mas existe a ousadia em fazer o que raramente é feito. Em tornar o que a sociedade comumente descarta em forças intensas demais para serem ignoradas. Em tratar todos os personagens como humanos capazes de pensar. Como consequência, o mundo vibrou com esses personagens contrariando todas as expectativas enquanto os nascidos em berço de ouro geralmente não se davam tão bem.

Então chegamos na sétima e oitava temporadas. Fomos surpreendidos novamente, mas, dessa vez, por um festival de clichês. E assistimos, literalmente, o óbvio invadir a tela. As surpresas passaram a ser a destruição dos personagens e de belos arcos de história.


O motivo disso é simples e puramente o medo dos roteiristas em fazer algo ruim. A expectativa do mundo era tão grande, que preferiram trilhar o caminho fácil, usando arquétipos seguros utilizados várias vezes em outras obras e teorias de fãs, algumas existentes desde o lançamento do primeiro livro, tornando, portanto, a série em algo genérico e previsível. Uma dessas teorias clássicas é a R+L=J (Rhaegar Targaryen e Lyanna Stark seriam os verdadeiros pais de Jon Snow) que foi confirmada no final da sétima temporada. Porém, o arco "homem comum honrado que se descobre bastardo, não queria ser ninguém e se torna rei" foi explorado em inúmeros filmes, como "Em Nome Do Rei", e é algo que se espera e se torce a favor. "Cleganebowl", o esperado duelo entre os irmãos Clegane, que presenciamos no quinto episódio dessa oitava temporada, é outro exemplo de saída de roteiro previsível, mesmo que muito desejada pelos fãs. Até mesmo o romance entre Jon e Daenerys já tinha sido imaginado pelos leitores. E sobre a decadência da Daenerys, há um excelente texto que li no Garotas Geeks que fala como transformaram uma raiva legítima - algo que todos os humanos sentem - em loucura.

As grandes séries, as memoráveis, são famosas justamente por não serem óbvias. Quando assistimos "Breaking Bad", "The Sopranos" ou "Mad Men", tudo ali é motivo para ficarmos com uma pulga atrás da orelha. Lembro bem quando, na segunda temporada de "Breaking Bad", tinham episódios com uma cena solta, sem sentido aparente, que só foi explicada no final daquela temporada (Spoiler: a colisão dos aviões e os itens que caíram). Eles não tiveram medo das pessoas não entenderem e desistirem da série, mas acreditaram em sua obra. Um nível de ousadia que já vimos em "Game of Thrones" e desapareceu nas duas últimas temporadas.


Portanto, por mais querida que tenha sido, "Game Of Thrones" não consegue salvar sua última temporada em um episódio. Também não acredito que entregará algo diferente do bastardo que se torna rei (embora eu quisesse). A série chega ao fim neste domingo próximo, mas com a sensação de que já estamos assistindo outra coisa. Se os roteiristas tivessem aprendido com Tyrion Lannister, isso nunca teria acontecido, afinal "nunca esqueça o que você é, o mundo não esquecerá".




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