O labirinto psicológico de "Por trás dos seus olhos" Por Vanessa França
Uma série que deixa saudades até hoje do seu jeito leve de lidar com assuntos difíceis Por Lulu Ribeiro
Com a série chegando ao fim, podemos ver que a sala dos roteiristas é escura e cheia de horrores Por Pedro Soler e Lulu Ribeiro
Novo romance "O Sol Também É Uma Estrela" também aborda problemas atuais Por Estefania Goto
Realidade e fantasia se colidem para contar a história de um dos mais celebrados autores de todos os tempos Por Lulu Ribeiro

Resenha: Anos 90


Apesar da época no Brasil ter sido diferente, "Anos 90" alcança a familiaridade com a profundidade dos personagens
Por Pedro Soler

A estreia de Jonah Hill como diretor e roteirista chega forte e com doses assustadoras de realidade, fazendo-nos se importar e acreditar nos humanos em tela. Logo no começo do longa somos apresentados a dinâmicas familiares universais. Embora a intensidade seja sempre diferente, o conflito entre irmãos, a idealização do mais velho pelo mais novo e a busca de uma criança por aprovação são familiares entre culturas similares como a do Brasil e a dos EUA.

Com grande carga nostálgica, o filme funciona mais como uma máquina do tempo para quem viveu naqueles locais e épocas, perdendo parte do encanto para aqueles estranhos às situações retratadas. É possível, claro, assumir uma postura curiosa perante o filme, mas também é passível de desinteressar alguns espectadores.

Vale a experiência, no entanto, pelos personagens e atores. Enquanto "Anos 90", já em cartaz nos cinemas brasileiros, pode (e irá em muitos locais pelo mundo) falhar na nostalgia, o longa compensa com atuações cativantes, personagens construídos com profundidade magnífica e a jornada tão característica aos seres humanos para se encontrar.


Sunny Suljic interpreta Stevie, um garoto entrando na adolescência que idolatra seu irmão, Ian (Lucas Hedges). Este, por sua vez, é abusivo e explora Stevie. Sem se sentir aceito, Stevie fica fascinado pela unidade e amizade de um grupo de skatistas e busca se aproximar.

Outro ponto positivo retratado por "Anos 90" são justamente esses skatistas que, com humildade e muito bom humor, acolhem Stevie e se mostram sempre abertos a todos. Nessa dinâmica, encontramos drogas, bebida e cigarro? Sim. Encontramos também aceitação acima de tudo, preocupação com os amigos e um grupo que certamente envelhecerá sem perder o contato.

Retornando aos atores, é impossível falar de somente um. Enquanto Suljic entrega uma ótima atuação e certamente merece destaque, todos os que compõe o núcleo do filme executam um trabalho tão crível que temos a sensação de acompanhar jovens de verdade em suas vidas.


Mas como nada é perfeito, "Anos 90" não é exceção. O filme demora um pouco a engrenar e acaba quase de forma abrupta. Um final amargo que se preocupa mais com a realidade do que com resoluções. Talvez, no entanto, esse amargor seja um dos charmes do filme.

Já para Hill, não poderia haver estreia melhor. É verdade que o projeto é pequeno e não deve atrair a atenção de muitos, mas deveria. Com roteiro bem construído, direção precisamente executada e um elenco carismático, "Anos 90" merece uma chance.




Comentários