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Artigo | A pedra em "Parasita"


Tinha uma pedra, no meio do caminho tinha uma pedra

Por Paulo Costa


Já soltei aos 7 ventos que para mim "Parasita" é a obra-prima máxima do cinema, inclusive ouso dizer que é o melhor filme que vi nos últimos 10 anos. Seja pela sua originalidade, pela questão política apresentada, pelas metáforas que nos leva a um leque de múltiplas interpretações. Contudo, existe uma destas metáforas que, mesmo depois de ver o filme três vezes no cinema, ao me questionarem fiquei tanto em dúvida quanto esta minha amiga que me perguntou: qual o significado da pedra no filme?

Após o questionamento, resolvi fazer uma busca que pudesse esclarecer esta brilhante duvida. Afinal, este estranho artefato está presente em toda a obra, a pedra marcar presença no enredo como se fosse um personagem tão importante quanto os protagonistas, mas ao mesmo tempo é algo misteriosamente dúbio. Eis que me deparei com uma excelente entrevista que o diretor Bong Joon Ho ao Polygon.

[Se você ainda não assistiu ao filme, a partir deste momento o texto contém alguns spoilers!]

Na entrevista publicada em outubro de 2019, o cineasta explica que o ato de colecionar pedras achadas em montanhas é um costume das gerações mais antigas na Coréia e que, nos dias atuais, é algo difícil de se encontrar.

"Meu pai costumava colecioná-las também. Ele parou de fazer isso porque elas eram muito pesadas.", conta o diretor. "[Hoje] É uma coisa estranha. Tenho 50 anos e não há ninguém da minha geração - meus colegas, meus amigos - que colecione mais essas coisas. Pedras? Por quê?"

Para quem não se recorda, no longa, o artefato é dado de presente  ao jovem Ki-woo, e assim como nós, o objeto também lhe causa estranheza. Assim como a atmosfera criada em "Parasita" também é algo estranho e de múltiplas interpretações. Joon Ho brinca:

"Não posso deixar que alguém que não esteja familiarizado com as pedras passe por cima, tenho que criar um clima estranho. Para atores e diretores, acho que é um grande feito. [Risos]" - tendo ciência de que para os não familiarizados com essa cultura já surtiu o efeito da duvidas, ele complementa - "Mas, para os estrangeiros vendo essas coisas, pensando: 'Isso é estranho, por que isso está aí? Isso tem que estar lá? É um símbolo?'. Bem, já que o ator diz que é um símbolo [em determinada cena o personagem expressa isto], então é ainda mais estranho. Então, talvez não seja mesmo um símbolo?"

O cineasta ainda comente que no inicio da obra, a rocha é supostamente algo metafórico porém, no final, é literalmente uma arma usada para esmagar a cabeça de alguém. Para ele "[...] a rocha traz uma camada extra para a história. Parece esse objeto amaldiçoado que acaba coberto de sangue. Ele conta a história de todos esses eventos horríveis. Não me lembro por que pensei nisso no começo, mas foi assim que acabou."

Na matéria, Bong Joon Ho  ainda comenta sobre várias curiosidades por trás da produção, desde a elaboração do roteiro, até outras metáforas [por que pêssegos?], além de sua relação com o cinema, seu trabalho em "Okja" (2017), vale a pena conferir a entrevista na integra.

Mas ainda sobre a pedra, confesso que já refleti sobre diversas interpretações, uma deles é que este enigmático objeto seria uma forma de retratar a dualidade na vida do personagem, seria um dom e ao mesmo tempo uma maldição, o que define a verdade da mentira e principalmente, aquela que dá sentido a morte e a vida. Mas na real, eu adoraria que Carlos Drummond estivesse vivo para debater qual o significado da pedra em "Parasita"?