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Sem pudor e medo de julgamentos, Elton John se despiu de sua fantasia e através de cenas deslumbrantes nos contou sua verdadeira história

Por Paulo Costa


Depois do estrondoso sucesso que "Bohemian Rhapsody", mais conhecido como o "Filme do Queen" ou o "Filme de Freddie Mercury", fez nos cinemas e nas premiações, garantindo inclusive a Rami Malek o Oscar de Melhor Ator, os estúdios passaram a ver com outros olhos as cinebiografias musicais, um mercado que, diga-se de passagem, estava esquecido a um bom tempo. A mais recente aposta veio da Paramount Pictures, que com um universo tão colorido e peculiar quanto o de seu personagem principal, nos presenteou com a história do superstar  Elton John.

Em "Rocketman", lançado nos cinemas nacionais em 2019, temos retratado em tela a trajetória de um dos mais importantes e conceituados artistas do mundo musical, de uma infância complicada onde, negligenciado por seu pai e com uma mãe egocêntrica, Reginald Dwight, tinha o que podemos chamar de amor, apenas o que recebia de sua avó, que desde o primeiro dedilhar de seu neto no piano sempre apoiou e acreditou em seu potencial. Quando jovem, somos apresentados às origens de sua parceria com Bernie Taupin, que viria a ser seu maior parceiro profissional e que o levaria ao estrelato. A vida de Elton John é contada através de suas memórias utilizando como base  belas releituras de seus maiores hits.


Com um visual esplendoroso, sempre muito cheio de cores vibrantes e espalhafatosos figurinos, o que inclui a criação de mais de 50 pares de sapatos e 50 óculos diferentes, somos remetidos a um dos filmes visualmente mais bonitos que vi recentemente em tela. Cada número musical possui uma particularidade absurda, o que torna todos marcantes e, quando costurado com o roteiro, que em boa parte se utiliza destas canções, explodem na tela e enche os olhos da plateia. Seja do pequeno Regie sozinho em seu quarto imaginando que está a conduzir uma orquestra, ou até mesmo de toda a sequência da canção que deu o título ao filme, "Rocketman", arrisco em dizer que até mesmo a cena mais simples, que narra a origem de "Your Song" que considero uma das mais profunda e sincera declaração de amor já feita em forma de música, é muito bem trabalhada e construída. Não podemos esquecer de mencionar que o hit "Goodbye Yellow Brick Roads" nunca fez tanto sentido como a que temos estampada no longa.

Taron Egerton constrói e desconstrói a figura de Elton John de uma maneira tão profunda, particular e verdadeira que é impossível imaginar outro ator encarnando o cantor. O grande mérito vai para a estrutura como a narrativa se constrói, de um ser totalmente criado em suas próprias fantasias que, ao encarar o fundo do poço, chega a uma clinica de reabilitação e começa a se despir diante do público. Assim como o próprio Elton John, o ator Taron Egerton também não se intimidou, e tudo ali é apresentado sem o menor pudor ou com medo de julgamentos, seja em mostrar seu vício em drogas, remédios ou sexo, seja no consumismo compulsivo ou até mesmo em sua bulimia e, se nas mãos de um ator errado, seria um total desastre.



Juntando esta estrutura que foge do convencional de uma narrativa cine biográfica e acrescentando a uma edição energética, o personagem cresce ao se desconstruir, partes desta espalhafatosa fantasia cheia de plumas, pedrarias e outros adereços, tudo em tons alaranjados que em um ambiente como o de uma sala de reabilitação irradia suas cores, saem de cena e vai se apagando conforme a história avança para uma triste e dura realidade.

Bryce Dallas Howard é outro grande destaque ao entregar uma mãe que pensa apenas em si, que nunca ligou para o filho ou lhe deu toda a atenção e cuidado que uma mãe daria ao seu filho, exceto quando este começou a fazer fama e fortuna. Vale dizer que a maquiagem que a vai envelhecendo conforme o personagem de Elton John vai se tornando mais velho é algo perfeito e que nos convence de que ela envelheceu naturalmente. Mas talvez muito mais que Bryce, foi um irreconhecível e moreno Jamie Bell que, ao dar vida ao grande amigo e parceiro de composições Bernie, foi o responsável por várias das cenas que me arrancaram lágrimas, é ele a pessoa que nunca desistiu de seu amigo e, entre altos e baixos, sempre esteve ao seu lado. Quase que como um "casamento perfeito", temos a o amor de dois amigos que viveu e sobreviveu na alegria e na tristeza, na saúde e na doença. 


Feitas as considerações para os astros, outro ponto que vale destacar na obra é a questão da sexualidade do personagem, tema tratado de forma tão ampla e sem preconceitos que nos proporciona duas belíssimas cenas de sua intimidade. Uma de Elton na cama com outro homem, John Reid, personagem canastrão de Richard Madden, e a outra em uma discoteca que não vale detalhar para não estragar a experiência, mas é esplendorosa, um verdadeiro orgasmo visual de som e cor  .

O cineasta Dexter Fletcher, que trabalhou como montador em "Bohemian Rhapsody", entrega uma visão que beira o perfeccionismo. Tal elogio faz total sentido quando analisamos profundamente o exímio trabalho como diretor de atores, desde um figurante até o principal, nenhum deles está em cena à toa e muito menos entregando um personagem raso. Como diz o slogan, "Para contar sua história é preciso viver sua fantasia", o longa nos entrega algo tão fantasioso, mas ao mesmo tempo tão verdadeiro, que faz de "Rocketman" um filme efervescente em todos os sentidos. Vivenciamos, então, uma viagem de aproximadamente duas horas por uma "estrada de tijolos amarelos" repleta de paisagens deslumbrantes cheia de sentimentos, seja a alegria ou a angustia, o sofrimento ou o próprio amor, e até mesmo esperança, este inclusive o que todos nós precisamos um pouco para viver.

O filme esta disponível no catálogo do Telecine Play.